segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Crônica do Imediato

"O tempo divide-se entre o ontem, o hoje e o amanhã. Ontem já foi, e amanhã, vá saber. Dito, assim, fica fácil perceber qual das três etapas é a mais importante. O presente, lógico. O passado é importante pela bagagem que você traz de lá e o futuro só é importante no plano da abstração e da fantasia, porque ninguém o alcança: estamos todos presos neste exato momento.

Diante dessa visão simplista, passado e futuro transformam-se apenas em sinalizadores de calendário, em semântica para designar quem você foi e quem você pretende ser quando crescer. No entanto, são justamente esses dois tempos que monopolizam o planeta. O presente, coitado, não tem armas para combater duas superpotências chamadas Lembrança e Expectativa.

O passado é um álbum de fotografias onde as cenas fora de foco não entram. É a realidade revisada: recordar é esquecer a banalidade dos fatos. Um encontro amoroso, o que é? Duas pessoas que se olham, se tocam, se beijam, discutem, fumam, se beijam de novo, implicam uma com a outra, riem, fazem juras eternas, espirram. Esse encontro, 24 horas depois, será lembrado com mais boa vontade: a fumaça do cigarro, as pequenas implicâncias e os espirros sumirão da memória. Ficarão os beijos, as palavras e os olhares. Foi um encontro mais ou menos agradável, mas será lembrado como mágico. A saudade faz tudo subir de escalão.

Suas férias estão sendo boas, mas chove há três dias, a cabana que você alugou não era bem como o corretor descreveu e você está sentindo falta, não conte pra ninguém, do trabalho! Mas, ao voltar para casa, a lembrança tratará de aperfeiçoar aqueles 30 dias úteis em Camboriú e você não cansará de dizer que suas férias foram magníficas. Até mesmo dores antigas ganham novo status ao serem recordadas: dor de cotovelo vira aprendizado e aquela vontade de se atirar embaixo de um ônibus vira um profundo processo de autoconhecimento. Ter sofrido no passado é sempre didático.

O futuro é outra flor de simpatia. A expectativa veste a todos muito bem, coloca sábias palavras em nossa boca e uma fortuna em nosso bolso. A megasena acumulada que será sorteada daqui a alguns dias, a entrevista de emprego marcada para quinta, o próximo verão em Punta, não sairá tudo como planejamos? Quem dera. A realidade nunca foi páreo para a imaginação.

Fica o presente, então, encurralado entre esses dois períodos emblemáticos, o passado e o futuro, quando na verdade ele é que deveria ser a estrela da festa. O antes e o depois são apenas figuração: durante é que o desejo é real, que as pernas tremem, que o coração dispara, que o abraço ainda está quente. A vida é breve e só existe esse instante. Amanhã um pintor de parede estará cobrindo o chão com esse jornal e minha crônica servirá de capacho para um tênis sujo de tinta. Tic-tac, tic-tac. O tempo não perdoa."

- Martha Medeiros -

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De fato, "a saudade faz tudo subir de escalão".

Quando longe, as pessoas ficam mais bonitas, mais importantes e você se concentra na falta que elas te fazem e como tudo seria divertido se vocês tivessem juntos.

Quando perto, você repara que nem tudo são flores, que a falta que você sentiu pode não ter sido recíproca e que, talvez, os laços que você achava que existiam já não são tão fortes assim.

E o pior é que isso te faz pensar, te remete ao passado e te leva pra aquela superpotência, a Lembrança. Nela você era feliz, seu mundo era próximo do perfeito e você se culpa por não ter se dado conta disso quando aconteceu.

E quando você menos espera, você se pega sonhando, pensando que um dia talvez tudo volte a ser como antes e aí se vê viajando pra outra superpotência, a Expectativa. Nela você vai ser feliz, seu mundo vai ser próximo do perfeito e você tem certeza que vai se dar conta disso quando acontecer.

Mas aí, quando por fim você se dá conta que deveria ter se concentrado no presente, talvez seja tarde demais. E você acaba por se ver num ciclo em que tudo que te resta são as lembranças e as expectativas, as lembranças e as expectativas, as lembranças e as expectativas...

Um comentário:

  1. Muito bom o texto, gostei bastante.

    Tava sentindo falta das suas publicações.

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